Atualizado: Questlove dá uma palestra para alunos da NYU sobre MJ
(28 de fevereiro de 2013) O “professor” Ahmir Khalib Thompson — também conhecido como Questlove (The Roots) — está ensinando um curso no Clive Davis Institute of Recorded Music da New York University (EUA) intitulado 'Topics in Recorded Music: Classic Albums'. O curso acontece por quase três horas toda semana e, nesta semana, é “Michael Jackson Day”. Os alto-falantes do estúdio soltam ganchos de Michael Jackson. Questlove os substitui por 'Starlight', a gravação original de MJ para “Thriller”, antes de “ficar com cara de Halloween”, como ele coloca. “Eu não costumo tocar músicas completas”, diz Thompson, deixando 'Starlight' tocar por um pouco mais do que ele está acostumado.
Seu Afro característico está escondido sob um gorro de tricô, ele está usando uma jaqueta (hoodie) do Fishbone e trabalhando com dois MacBook Pros ao mesmo tempo — ao lado do co-professor Harry Weinger, veterano da indústria e atual VP de A&R da Universal Music Enterprises.
Nesta semana, os alunos da turma de Thompson estão aprendendo sobre o clássico de 1979 'Off the Wall'. Na época, Michael tinha 21 anos e deixou o conforto da banda da família para seguir carreira solo. A idade média dos alunos na turma também é de cerca de 21 — no entanto, traduzir uma época que está além de uma lembrança distante pode parecer uma tarefa assustadora, até para alguém tão apaixonado pelo próprio trabalho quanto Thompson.
Ele aborda o curso pelo ângulo de contar histórias e fala diretamente com os alunos, ciente de que talvez essa seja sua única chance de levar um amor analógico pela música para uma geração digital. Agora, quatro semanas depois do início do curso, Thompson parece ter encontrado seu ritmo. Se ele se perde em uma fuga musical, Weinger o puxa de volta. Quando Weinger vai longe demais no lado empresarial, Thompson entra com algumas preciosidades musicais. É um equilíbrio perfeito, e a turma aprecia isso. Antes do primeiro dia, Thompson comprou um iPod Nano para cada aluno e carregou nele uma história extensa da música. Se ele incluísse uma faixa de hip-hop, também carregaria a amostra em que ela se apoiava. Esse pequeno presente de música custou mais de US$ 5.000. Os alunos poderão ficar com seus iPods quando terminarem o curso de sete semanas.
O ponto central do “Michael Jackson Day” inclui ouvir demos originais (um pendrive foi enviado a Thompson enquanto ele estava no set de 'Late Night With Jimmy Fallon', como um presente de aniversário de 40 anos). Por exemplo, Questlove coloca várias faixas instrumentais não usadas para ilustrar o gênio da supervisão de produção de Quincy Jones em “Don’t Stop Till You Get Enough”.
“Minha observação sobre este disco não foi sobre o que entrou, mas sobre o que foi tirado. Este disco é universalmente considerado muito atemporal... Quando estou trabalhando com um cliente, posso ter uma ideia de para onde acho que a música deveria ir, mas só por uma boa solidariedade, para que eles não pensem que você é um ditador, talvez você queira deixar que eles esgotem todas as ideias. ‘A/B-ing’ significa que você testa todas as ideias do mundo e depois fica com elas, e volta. E se funcionar, você usa; se não funcionar, você descarta. Nestas [faixas não usadas] há muitas ideias que eu fico chocado por eles sequer terem tentado: tem faixas de theremin, sirenes cafonas, arranjos de cordas de disco exagerados, percussão exagerada.
Michael Jackson tinha muitas ideias e provavelmente queria usar todas elas. ... Eu gostaria de ter estado lá para ver Quincy Jones tirar Michael do abismo. E às vezes Michael até conseguia — Quincy, até hoje, vai dizer que ele odiava “Billie Jean”. Mas claramente, aqui a chave do sucesso é não exagerar — a subestimação é a mágica disso.”
Um momento divertido acontece durante uma gravação de demo de “Don’t Stop Till You Get Enough”, em que você ouve Randy Jackson adolescente e uma Janet de 10 anos gritando com Michael porque a música está alta demais nos fones de ouvido. Essa demo não foi tocada apenas por valor de entretenimento: A versão mais crua da música mostra o preparo rigoroso e a ética de trabalho de Michae, e evidencia o quanto muitos dos títulos de “Off the Wall” já estavam completos antes mesmo de as gravações finais começarem.
É perto do fim da aula que as coisas se encaixam. É muito fascinante ouvir quatro versões diferentes do vocal principal de Michael em “She’s Out of My Life”. Questlove conta a história de que Michael tinha acabado de terminar com Tatum O’Neill e estava sofrendo na época em que gravou a música — e enfatiza que ele usou essa emoção na arte. Enquanto Michael canta a música no estúdio, ele começa a chorar. Pode ser um dos sons mais vulneráveis que já saíram dele, e ele pede desculpas na fita por “ter estragado isso”.
Thompson explica que Michael usou essa vulnerabilidade a seu favor durante shows ao vivo, tocando um trecho como prova. “É muito raro você conseguir acertar em cheio um momento em que você pode ficar tão vulnerável e tão aberto, tão humano — e que não é necessariamente a primeira coisa que vem à mente quando a maioria das pessoas pensa em Michael Jackson. Parte da missão problemática dos artistas negros pós-modernos é a necessidade de serem vistos como seres humanos. Eu estava curioso para saber se a caricatura em que Michael Jackson se transformou ainda está na sua cabeça quando você ouve este disco, ou se esses momentos em que ele deixa o lado humano aparecer — vocês sentem que ficou um pouco diferente agora que ouviram dessa forma?” Thompson pergunta.
A turma concorda com um “Sim!” bem alto.
“Missão cumprida”, diz Weinger.
Fonte: MJFC / Rolling Stone / Billboard